Crise do varejo? Por que algumas gigantes estão em crise e outras seguem crescendo

  • 19/08/2026
(Foto: Reprodução)
Crise das Casas Bahia pode limitar crédito Os pedidos de recuperação judicial da Casas Bahia e da Marabraz, anunciados no último domingo (16), são novos capítulos da crise enfrentada por parte do varejo brasileiro. As dificuldades atingem principalmente as empresas que atendem consumidores de renda média e baixa. Pagar dívidas e gerar caixa se tornaram desafios em um cenário de juros elevados, crédito restrito, endividamento das famílias e consumo enfraquecido. 🗒️ Tem alguma sugestão de reportagem? Envie para o g1 Para especialistas do mercado financeiro, a situação força o setor a passar por uma transformação estrutural, que inclui a revisão das operações, o fechamento de lojas e a definição de novas prioridades estratégicas para manter a competitividade. Por outro lado, também há espaço para quem fez a lição de casa aproveitar a vulnerabilidade de gigantes do setor para ocupar mais espaço no mercado. Há uma crise sistêmica no varejo nacional? De acordo com Olívia Flôres de Brás, CEO da Magno Investimentos, seria um erro falar em uma crise generalizada do varejo, apesar do elevado número de recuperações judiciais e de empresas com dificuldades financeiras. A especialista vê uma espécie de "seleção empresarial", já que algumas companhias atravessam o atual cenário econômico com estruturas financeiras e operacionais mais sólidas do que outras. “O problema está concentrado principalmente nas companhias que combinaram endividamento elevado, margens de lucro mais estreitas, necessidade intensa de capital de giro e modelos operacionais custosos”, explica. Na prática, varejistas são naturalmente mais dependentes de crédito. Além de financiar estoques, operações e planos de expansão, muitas empresas do setor dependem do poder de compra dos consumidores, do acesso ao crédito e ao parcelamento. Os casos da Casas Bahia, da Marabraz e do Grupo Toky (Tok&Stok e Mobly) são exemplos dos impactos do crédito mais caro e da redução do consumo das famílias. É o mesmo fenômeno que atingiu outros grandes nomes, como Ricardo Eletro, Americanas, Casa & Video, Le Biscuit, MMartan, Artex, Saraiva e Livraria Cultura. São empresas que também passaram por processos de recuperação judicial, falência ou outras formas de reestruturação financeira. “Há uma dicotomia entre o avanço das grandes plataformas digitais — como Mercado Livre, Amazon e Shopee — que continuam ganhando participação, com eficiência logística e tecnológica, e parte do varejo tradicional, que sofre com lojas físicas custosas e vendas mais fracas”, diz Rebecca Nossig, estrategista de ações da Nomad. Para a especialista, esse movimento também reflete a maior variedade de produtos oferecidos pelas plataformas digitais e o menor valor médio gasto em cada compra. “Como o consumidor continua comprando itens essenciais, segmentos ligados a bens básicos e grandes plataformas digitais seguem operando com margens saudáveis e em expansão”, acrescenta Nossig. Reestruturação do varejo Parte dessa readequação já começa a aparecer entre as grandes varejistas. Como o g1 já mostrou, várias dessas empresas começaram a rever seus modelos de crescimento, fechando lojas ou desacelerando a expansão física para reduzir custos. Ainda assim, o mercado não espera uma recuperação rápida dos resultados nem das ações das grandes varejistas tradicionais, principalmente enquanto os juros permanecerem elevados. “Ainda há preocupação com a saúde financeira e a sobrevivência de algumas empresas do setor. Claro que não deixarão de existir lojas, mas é um mercado bastante instável”, diz o economista e CEO da Corano Capital, Bruno Corano. Para Brás, da Magno Investimentos, no entanto, a queda dos juros não funcionará como um “botão de reset”. “O consumidor ainda precisa recuperar renda disponível, a inadimplência precisa ceder e o crédito precisa chegar à ponta em condições melhores”, explica. “Também existe uma defasagem: uma redução da Selic não aparece instantaneamente no carnê, no financiamento ou no capital de giro. Para companhias já fragilizadas, alguns meses podem representar uma eternidade financeira.” Segundo os especialistas, esse cenário pode fazer com que empresas mais fragilizadas se tornem alvos de fusões, aquisições ou parcerias estratégicas. Ao mesmo tempo, o e-commerce tende a ganhar ainda mais espaço e consolidar sua participação no mercado. “O futuro do médio prazo do setor pertencerá às operações verdadeiramente integradas, em que a loja física deixa de ser apenas uma grande vitrine e passa a funcionar de forma inteligente como um centro de distribuição rápido e ponto de apoio para o comércio eletrônico”, diz Nossig, da Nomad. Como fica a carteira de investimentos? A crise do varejo também afeta quem investiu nas empresas do setor. Como mostrou o g1, as ações do Grupo Casas Bahia (BHIA3) protagonizam uma das maiores quedas da bolsa brasileira dos últimos anos, passando de mais de R$ 400 no auge da empresa, em 2020, para centavos. Assim, os especialistas esperam uma redução da presença do varejo nas carteiras de investimentos, já que os sinais de desaceleração da economia tendem a aumentar a incerteza sobre o setor. “Empresas com caixa robusto, baixa alavancagem, geração consistente de fluxo de caixa, marcas fortes e capacidade de ganhar participação podem até sair fortalecidas desse processo”, diz Brás. Nossig, da Nomad, afirma que o mercado tende a ser mais rigoroso na seleção das empresas em que investir. “Essa abordagem permite que empresas com fundamentos mais sólidos continuem ocupando posições relevantes nas carteiras”, explica, destacando o varejo alimentar e as redes de farmácias. “Os próximos vencedores provavelmente serão definidos menos pela velocidade de abertura de lojas e mais pela capacidade de gerar caixa, girar estoques, controlar o endividamento, integrar canais de venda e fidelizar consumidores sem depender continuamente de incentivos para sustentar essa relação”, completa Brás. Varejo. Steve Buissinne para Pixabay

FONTE: https://g1.globo.com/economia/noticia/2026/08/19/crise-do-varejo-por-que-algumas-gigantes-estao-em-crise-e-outras-seguem-crescendo.ghtml


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