Curadora da mostra 'Funk: Um Grito de Ousadia e Liberdade' cita censura após evento ser encerrado antes da data
03/06/2026
(Foto: Reprodução) Curadora da mostra ‘Funk: Um Grito de Ousadia e Liberdade’ cita censura após evento ser encerrado antes da data
Divulgação
Renata Prado, curadora da mostra "Funk: Um Grito de Ousadia e Liberdade", fez uma carta aberta nas redes sociais citando censura após o evento ser encerrado antes da data prevista, sem aviso prévio.
Em cartaz no Museu da Língua Portuguesa, em São Paulo, a mostra contava com 473 obras de arte, fotografias, audiovisuais, vestuário e outros itens. A exposição, que ficou um ano e meio em cartaz Museu de Arte do Rio, ganhou conteúdos inéditos sobre o funk paulista ao desembarcar em São Paulo, em novembro de 2025.
Ao g1, Renata afirmou que a mostra estava prevista para ficar em exposição até agosto. Mas, segundo relatou nas redes sociais, ela foi encerrada antes do combinado. O site do Museu da Língua Portuguesa informa que o evento chegou ao fim em 31 de maio. Procurado pelo g1, o museunão retornou até a última atualização desta reportagem.
"Ninguém [da governo do Estado ou do MLP] falou comigo, não houve diálogo para pensarmos um caminho. Sofremos um ataque sistemático e não conseguimos nos defender", afirmou Renata ao g1.
"O MLP fez uma série de reuniões comigo para entender que o movimento do funk é singular e que a exposição poderia sofrer retaliações. O acesso à cultura é um direito constitucional que, nesse caso, não foi assegurado. Nós saímos pela porta de trás do museu", destacou a pesquisadora.
De acordo com as postagens de Renata, o encerramento antes da data aconteceu após "começarem a surgir vídeos e manifestações de parlamentares da extrema direita atacando a mostra e associando seu conteúdo à apologia ao crime, às drogas e a narcocultura. Desde o início dessas investidas, fui informada pelo Museu da Língua Portuguesa de que a repercussão estava sendo monitorada".
Um desses vídeos era do deputado estadual Tenente Coimbra (PL). Nas redes sociais, ele citou que esteve no evento e afirmou: "Fomos até o Museu da Língua Portuguesa verificar o absurdo que está em exposição que enaltece a narcocultura. Já entramos em contato com a secretária de cultura e em breve traremos novidades".
"Posteriormente, soube que o assunto havia sido levado ao Conselho da instituição. Pouco tempo depois, fui comunicada de que a exposição seria encerrada antecipadamente. Também fui informada de que uma nova exposição passaria a ocupar o espaço, algo que jamais havia sido apresentado ou discutido comigo ao longo do processo de produção da exposição", completa a pesquisadora.
Em seu relato, Renata afirmou que era "preciso nomear o que está acontecendo".
"É censura. E existe uma dimensão profundamente simbólica nesse episódio. Estamos falando de uma exposição realizada no Museu da Língua Portuguesa, uma instituição dedicada à valorização das múltiplas formas de expressão que compõem nossa cultura."
"O funk também produz linguagem. Produz vocabulários, códigos e formas de comunicação que influenciam milhões de pessoas. Por isso, quando uma manifestação cultural periférica é silenciada, a pergunta que permanece é: Quem decide quais vocês merecem ocupar os espaços de memória do país?."
"Defender o funk é, também, defender a legitimidade das expressões jovens, negras e periféricas. É defender a vida de todo pobre loko que encontra nas culturas negras uma forma de existir. Seguimos em luta", finalizou a pesquisadora.
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